sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

"Não é no progresso material que se esgota a minha utopia.
É no progresso espiritual como expressão mais radical de nossa plena humanidade".

FREI BETTO

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O Reino Numeral

Ouço notícias da Palestina,
E meus ouvidos, pouco receptivos a notícias,
Ainda assim se escandalizam de dor.

As pessoas são números estatísticos
E isso me agride bastante,
Porque os números sempre me causaram sensação de distanciamento e frieza.

Porque os números...
Os números não nutrem esperanças,
Nem são dotados deste músculo essencial chamado coração.

Não, os números não se despedem daqueles a quem amam,
Com beijos, ao sair, logo pela manhã.

Não, eles também não temem a incerteza do retorno seguro ao lar,
Eles não ouvem o "tchau" dos filhos,
Com aquele amável grito estridente,
Que só as crianças sabem emitir.

Os números... Os números não amam,
Os números não odeiam.

Não se personificam,
Nem tão pouco os seres humanos por eles representados
Podem regredir, vergonhosamente a esse seu estado numeral...
Isto jamais!
Porque, ainda que sejam infindos,
Neles jamais caberiam todos os sonhos,
Medos, alegrias, angústias e desejos
Que acalentaram, aqueles de quem o estado numeral decreta,
solenemente, nos telejornais burros,
a morte.

Talvez a morte seja mesmo,
Ao menos para os mais insensíveis,
O triunfo dos números,
A instauração do Reino Numeral...

A estrela e a cruz...

Eu, particularmente, as inverteria em minha lápide,
Que a vida, às vezes é fardo,
Enquanto que o morrer é alento de felicidade eterna.

...

A caneta quase que se nega a registrar este último verso,
Contudo, há necessidade de encerrar esse poema com ele,
Ou, seria mais adequado, com ela,
Esta pergunta que se lhe apresenta assim,
Grave, fria e mortal:
- Quantos, quantos teriam morrido desde o início de sua escrita
até este desfecho esdrúxulo?
Quantos?

NÚMEROS...

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

NOITE DE NATAL


Era noite de Natal, e eu pensava em escrever algo breve e impactante, um poema comovente, arrebatador.

Sozinha em meu quarto, a janela entreaberta, dezembro calorento, eu pensava, pensava, e contudo as palavras todas pareciam arredias ao meu convite...

Na casa ao lado, os vizinhos comemoravam o nascimento de Cristo brigando com o cachorro, aos gritos, só superados pelo volume histérico e indecente da “música” que ouviam.

Em minha mente, soava grave e passional: “Adete fideles”... E toda aquela atmosfera esquizofrênica ao lado, me levava a refletir sobre esta noite especial.

“Você não vai tomar cerveja?”; “Bebo sem me prejudicar...”; “Você que falou que quer ver eu ruim..” Esse diálogo, vez por outra, desviava minha atenção. Mas havia a necessidade de concentrar-me em meu intento: Escrever sobre o Natal.

Mas que ritmo ou esquema de rimas resistiria àquela barulheira desordenada, a que atualmente convencionou-se chamar música?

Não escrevi nada, contudo, tenho ainda um poema todo estruturado em minha mente, lindo, passional, tal como havia idealizado e descrito nas primeiras linhas desse desatino literário natalino.

Curiosamente, ele não se fez escrever com palavras. Cada verso seu, arrebatador, é uma imagem. Cada verso, uma pessoa.

Confesso que ele não é longo, pois detive-me a esquadrinhar somente as realmente relevantes. E como elas se encaixam, rimando umas com as outras, nas tramas de meu poema-vida...

E de quanta ternura foi que se fez esse poema, porque de cada um dos rostos que me são caros, retirei apenas sorrisos, sugando o que de melhor havia de seus donos, só...

E fiquei só, mesmo com o esplendor desse poema personificado... Só e pensativa... Feliz e triste, saudosa por aquilo que não foi...

Só, falei com Deus. (Me encanta a idéia de dividir com Ele tudo aquilo que já sabe de antemão).

Só, pensei ainda mais um pouco... E adormeci, apesar da persistência da poluição sonora ao lado, apesar de todos os meus medos, da rua, que insistia com seus barulhos e toda sua gente que desconhece o verdadeiro significado dessa data...

Adormeci em paz, na paz de que deveria estar gozando o amado aniversariante, há milênios, numa fétida estrebaria, em Belém.

sábado, 20 de dezembro de 2008

***CELEBRAÇÃO***

Celebremos!

Celebremos
O Natal dos miseráveis,
O mais significante de todos,
Por semelhante ao primeiro.

Eles que revestem o corpo esquelético com trapos,
Eles, para quem não há lugar que lhes seja digno ou confortável
Dentro desta sociedade regida pelo mal.

Pequenos, insignificantes, aos olhos da grande massa ensoberbecida ...

Não esperam presentes,
Nem tão pouco, fartura à mesa.

Apenas assistem moribundos a este espetáculo capitalista,
Em que se transformou a suposta comemoração ao nascimento de Cristo.

Não, eles não esperam pela lenda ridícula,
Travestida de barba e vermelho,
Mas aguardam ansiosamente pelo menino,
Que já contorse em dores a mãe maltrapilha,
O corpo retorcido sobre jornais,
Velado por cães e pelo pai.

E pelo Pai...

Sob um céu estrelado,
Anunciando Vida e Salvação!