quinta-feira, 15 de julho de 2010

PRESENÇA

Eu sei onde estou
É bem aqui, você pode ver?

Sentada no sofá da sala, cabelos presos, vestido indiano,
solto, largo, leve
Uma agenda na mão, o barulho da TV ligada não sei pra quem,
As cores das imagens projetando-se vez por outra na parede
E uma vontade imensa de macular o papel com a caneta.

Uma vontade imensa de fingir não saber das dores, das angústias, do mal...
Uma saudade absurdamente profunda daquilo tudo que não vivi.

Eu não estou aqui,
minha alma inquieta, andarilha, não cabe nessa sala,
nem no abandono que esta noite propõe.

Eu estou aí
E você já deve ter sentido meu perfume anunciando
minha doce e forte:
PRESENÇA.

Aqui e lá

Velhos, crianças e mulheres,
Homens, civis e militares,
Carne, alma e sonhos
o são em qualquer parte.

Aqui, no Haiti,
A vida é sempre vida,
sempre banalizada.

A dor sempre dói,
O ódio separa,
A ganância mortifica.

A guerra, a paz,
O caos e o paraíso
o são em qualquer parte.

Aqui ou no Haiti,
só o amor reconstrói.

mEdO

Depois de tanto medo
Depois de tantas lições diárias de medo
Frações de medo
A imposição do medo...

Só consigo chegar a uma conclusão:
Ando com medo de sentir medo.

Tempo?

A pressa da vida
atropela minha poesia

E é por isso que eu destoo dos relógios,
é por isso que os odeio.

Se eu digo: É hora de dedicar-me a um amigo.
Eles dizem: Não, há tanto para fazer ainda...

Se eu digo: É hora de exercitar a delícia do ócio!
Eles me acusam: Preguiçosa!

Se eu digo: É hora de partir.
Eles dizem: Fica.

Se eu digo: É hora de amar.
Eles dizem: Já é tarde.

E ainda supõem me enganar assim...
Ah, coitados! Esses servos das convenções...

Meu tempo, eu crio, uso, divido como e com quem me apetece.

Eu não uso algemas!