sábado, 19 de abril de 2008

EU


Sou capaz de entrar e sair, sem que me notem,
Falo pouco, e categoricamente,
Não me ajusto, contrario e sinto prazer nisso.

Conservo a timidez dos fortes,
A inércia dos covardes,
E minhas palavras são sempre muito melhores que eu.

Olho sempre nos olhos,
E repudio quem se intimida com isso,
Porque sim, há quem se intimide...

Eu sou mesmo assim,
Os outros é que erram,
E me idealizam, esperando de mim,
Tudo em demasia.

Eu não espero,
Não tenho paciência nem mesmo pra planos,
E sigo sem rumo,
Porque possuo a íntima certeza,
De que é sem rumo,
Que se chega aos destinos mais certeiros.

domingo, 13 de abril de 2008

Os quatro elementos


Fosse a vida um manancial,
Bebe-la-ia toda num gole só,
Feito louco sedento diante de um copo d'água.

Fosse ela chama,
Me deixaria consumir por ela, lentamente,
Feito borracha teimosa.

Fosse ela terra,
A distribuiria entre os miseráveis,
Feito latifúndio tomado à força,
Me contentando com o amplo espaço de sete palmos.

Fosse ela ar,
Me volatizaria, misturando-me a ela,
E feito gás carbônico,
Castigaria as narinas da humanidade,
Com meu perfume hostil.

domingo, 6 de abril de 2008

CHE


Ele já morreu?
Não. Suponho que não.
Mesmo? Tem certeza?
É só ver. Suas pupilas não estão dilatadas ainda.
E a respiração?
Está leve.
Quando ele vai morrer?
Posso eliminá-lo, senhor?
Breve.
Não fique assim, não, eu lhe asseguro que vai morrer.
Certo, estou mais calmo, aliás, o que ele fez?
Ele?
Sim.
Ele nasceu, teve infância, um lar, pai e mãe
Alguns irmãos.
Depois?
Cresceu, comprou roupas e uma moto com o suor do seu rosto,
teve dois trabalhos.
Depois?
Leu alguns livros, se interessou por uma garota.
Depois?
Pensou ter visto a liberdade numa esquina da cidade.
Depois?
Aprendeu apesar de tudo
que nos corpos ainda resta alguma liberdade
sem esquinas e sem cidades.
Palavra perigosa esta.
Concordo, muito perigosa.
Olha, parece que resiste.
É necessário que ele morra.
Sim.
Está na hora.
E mal lhe eprguntando,
qual foi seu último pedido?
Fazer uma poesia.
Que desperdício de pedido, poesia,
merece morrer mesmo.
Concordo plenamente.
Tem ela aí?
Queimei-a com suas roupas e pertences.
Você é muito competente.
Obrigado, senhor, bondade sua.
Olha, passa da hora, mate-o!
Posso?
À vontade.

Pronto.

E o corpo?
Enterre-o no jardim de casa
Minha mulher sempre reclamou da falta de adubo das hortências.

Nestor Lampros.




terça-feira, 1 de abril de 2008

"Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo."
(Carlos Drummond de Andrade)